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Legados da Gestão Laboratorial na Pandemia por Marcelo Milagres




Em 2020, laboratórios de análises clínicas de todo o país foram expostos a uma grande demanda devido à pandemia de COVID-19. Independentemente do porte da cidade, a procura por exames foi enorme, e talvez o fator que mais tenha impactado essa procura no setor privado foi o grau de assistência disponível no SUS.

O que vimos foi uma onda de aumento de faturamento, aquisição de equipamentos, abertura de postos de coleta e contratação de mão-de-obra. Para quem vê de fora, um setor em franca expansão com o impulso da pandemia.

Mas numa economia livre existem muitas variáveis a considerar e toda mudança traz consequências. Algumas imediatas, outras no longo prazo. Algumas boas, outras ruins. O desafio está na capacidade de antecipá-las, aproveitando as boas e evitando, ou protegendo-se das ruins. Assim, o impacto da pandemia no setor deve ser analisado a partir do entendimento do contexto gerado por ela.

Chamam a atenção dois aspectos positivos, importantes para o setor. O primeiro é a entrada de recursos, gerando grande excedente de caixa, e permitindo investimentos em equipamentos para atender a nova demanda. A contribuição para o PIB do setor, obviamente, foi para as alturas. O segundo, é que foi uma ótima oportunidade para o laboratório de análises clínicas reforçar sua posição como ator na cadeia de assistência à saúde, tanto fornecendo exames de qualidade quanto informações valiosas a respeito de todo o contexto da pandemia. São fatores que impactam positivamente o mercado no médio/longo prazo.

Porém existem também pontos de atenção e reflexão que podemos categorizar como setoriais, intersetoriais e macroeconômicos.

Dentro do setor, precisamos avaliar como foi o crescimento dos laboratórios durante a pandemia. Esse crescimento foi puxado por uma demanda externa, o que levanta uma questão importantíssima: todo crescimento deve ser planejado. É essencial que exista um planejamento estratégico que possa ser adaptado o mais rápido possível de acordo com a direção do mercado. Mão de obra e capital devem estar alinhados com a demanda, para que o laboratório não corra o risco de uma sobrecarga de gastos ou baixa utilização da capacidade instalada.

E tão importante quanto absorver uma grande demanda é readaptar-se quando ela retorna ao nível normal. Sabemos, pela experiência, que muitas empresas se tornam insolventes no momento em que resolvem expandir. O aumento da estrutura de custos fixos pode ser de difícil reversão no curto prazo, seja pela burocracia ou pela simples dificuldade de entender essa necessidade. Um passo mal calculado pode fazer um estrago enorme.

A crise econômica decorrente da pandemia trouxe também mais dificuldade no poder de barganha dos laboratórios com os convênios. Este setor é relativamente resiliente numa inflação alta, mas isso não muda a forma como trabalham as operadoras de saúde. Elas corrigem sua mensalidade pela inflação para absorver o aumento de preços ao mesmo tempo em que propõem aos laboratórios tabelas com correção menor que esse índice. Parte do setor, desunida e sem nenhuma consciência dos seus custos, aceita. Resta o poder de barganha com os clientes, através de convênios particulares, que em algumas regiões não chegam a 10% do faturamento total. Estrategicamente é uma posição perigosa para os laboratórios de análises clínicas.

Já o aumento da demanda por exames de Covid-19 trouxe um problema adicional para o setor de análises clínicas: a concorrência intersetorial. Farmácias foram autorizadas a realizar testes, com uma regulação muito frouxa. Em tese é o mesmo serviço com regulamentações bem diferentes, e que impactam a forma como o serviço é prestado. E aí, naquele movimento bem brasileiro, empresas começam a surfar nas brechas da lei e as farmácias passam a oferecer um portfólio de testes muito maior que o permitido legalmente. Ainda sem submeter-se às mesmas exigências. Em função disso, laboratórios passam a sofrer pressão sobre os preços praticados, mesmo que ofereçam um serviço superior ao teste de farmácia. Numa região com maior restrição orçamentária dos clientes, ponto importante no estudo dos fatores que interferem na demanda por produtos ou serviços numa economia, concorrer com farmácia pode ser impossível. Mais uma posição estratégica perigosa, pois reforça a perda do poder de barganha com os clientes.

Finalmente, no cenário macroeconômico, encontramos informações valiosas que influenciam o crescimento do país. É verdade que em 2021 a vacinação avançou, diminuindo as restrições da produção e melhorando as perspectivas de crescimento, mas ainda temos uma inflação galopante, pressionada pelo lado da oferta. O IPCA passou dos 10% no acumulado de doze meses. A balança comercial foi favorável pela alta demanda de nossas commodities, porém mesmo assim o câmbio se manteve em patamares elevados, o que também pressiona a inflação. O Banco Central elevou bastante a taxa básica de juros, tendência que pode continuar em 2022. Ou seja, temos um cenário de inflação alta, desemprego alto, câmbio desvalorizado e política contracionista do governo como forma de combater a inflação. As previsões de crescimento para o país são baixas.

Em resumo, a pandemia, economicamente, trouxe aumento do faturamento e possibilidade de reafirmação dos laboratórios no mercado de saúde. Mas como efeito colateral, enfraqueceu ainda mais a relação com convênios, permitiu a entrada definitiva de outros setores no mercado de diagnósticos e trouxe a certeza de que a regulamentação sanitária também contribui para sermos um país tão desigual nas oportunidades. Tudo isso num cenário de baixo crescimento econômico do país em ano eleitoral.

Assim, a conclusão é uma só: é urgente a necessidade de virar a página da pandemia. Mas para isso, é preciso conhecimento e dedicação para entender os números do seu estabelecimento.



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Marcelo Milagres é farmacêutico-bioquímico pela Universidade Federal de Ouro Preto. MBA em Gestão Empresarial e especializando em Mercado Financeiro e de Capitais. É sócio-proprietário do Laboratório Rocha Milagres. É secretário da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas - Regional - MG, diretor assistente da Central ACB - Análises Clínicas Brasil. Integra uma Comissão de Ética do Conselho Regional de Farmácia de Minas Gerais.